quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Caranguejo


Por Vany Grizante

“A onda é a vida que meneia,
a vida é a onda que não volta.”
        
         A pisada mais forte na areia, próxima do bichinho, fez com que ele se escondesse rapidamente entre as pedras. Mas ao cutucá-lo com uma vareta fina ele saiu da toca, nervoso, abrindo e fechando suas garras maiores para enfrentar aquele perigo iminente, mostrando coragem, determinação e pouca paciência ante as provocações.
         Deixou o caranguejo sossegado e o ficou observando. Ele andava desconfiado, de lado, como era comum entre os seres dessa espécie. Andar de lado tem várias vantagens: tem-se uma visão melhor do que acontece na periferia e não se chega direto ao ponto, mas come-se pelas beiradas. Além de confundir o observador. Esse bichinho blindado, desconfiado e um tanto agressivo, tem um jeito estranho de crescer: forma uma casca mole por dentro, abaixo de sua couraça protetora. Quando ela está pronta, rompe a armadura externa, deixa-a e fica escondido, com medo de que sua vulnerabilidade o traia, até que a recente casca endureça e ele possa enfrentar, com seu novo escudo e munido de sua possante garra, os perigos do mundo.
         O homem encantou-se com o animal que quase se mimetizava na areia. Tinha fascinação por esse bicho um tanto belicoso que se camuflava, lembrava um pequeno tanque de guerra e além de tudo já nascia armado. Sabia que era uma criatura versátil, adaptando-se facilmente a qualquer água. E isso lhe deu esperanças. Caranguejo, as estrelas lhe diziam. Iria sobreviver aos maus tempos, à água suja que invadiu seu território, aos perigos que se mostravam iminentes usando suas garras que, uma vez tendo prendido um objeto qualquer, jamais o soltariam. A menos que alguém as cortasse fora. E mesmo assim, decepadas, continuariam a segurar firme esse objeto de desejo.
         Voltou para sua casa à beira-mar, onde vivia só; uma solidão escolhida e ao mesmo tempo imposta. Tinha o mundo todo para si. Não tinha amarras, vínculos, laços de qualquer ordem; poderia, se quisesse, morar em qualquer outro lugar do estado, do país, do planeta. Em breve, do universo, por que não? Sua liberdade não tinha limites, como deveria ser todo tipo de liberdade.
         Liberdade, ele pensou... O que é? Não é ser sozinho. É ser o que se quer ser. Não é poder estar em qualquer lugar, é estar no lugar onde se quer estar. A liberdade não é não ter vínculos, mas escolher esses vínculos de forma que eles possam fazer alguém ser o que se quer ser e estar onde se quer estar. Ter vínculos pode significar ser mais livre do que quando não os temos... Liberdade é felicidade, concluiu. E ele, como tantas outras pessoas nesse mundo desesperador, não era, então, livre.
         Apanhou uma caneca, ferveu água, fez um café. Era um final de domingo, o sol morria atrás da montanha. Ele foi à praia, sentou-se nas pedras e ficou olhando o horizonte. Quantas pessoas entraram e saíram de sua vida... Quantos vínculos se perderam, meu Deus, quantas ondas vieram e voltaram, quanta areia se movimentou durante todos esses anos! Quantos peixes nadaram contra a corrente, quantas estrelas se perderam no fundo do mar, quantos caranguejos tiveram como certo que sua dura casca pudesse protegê-los de seu interior absolutamente macio, tenro e vulnerável...
         O verde profundo do mar parecia muito convidativo. Deixou a caneca de café ao lado, onde ela ficasse firme; ficou em pé na pedra e imaginou o que aconteceria se fosse ele a cair, ao invés da caneca. Impossível dizer... Nunca havia mergulhado ali. Podia haver pedras pontiagudas escondidas logo abaixo da superfície da água que o levariam à morte, mas ali também podia ser um local profundo a ponto de proporcionar um delicioso alívio para seus tormentos, trazendo-o à tona renovado depois do contato com a água salgada.
         Lágrimas embaçaram-lhe os olhos. Teve raiva de não ter tido coragem de mergulhar. Coragem, a sua maior virtude... Cansativo ser assim, aceitar todas as provocações, enfrentar com a agressividade das garras abertas perigos imaginários, ter essa casca dura para esconder um interior sensível e belo que poucas pessoas conheciam. Por sentir-se vítima de todas as pessoas e circunstâncias — como se tudo à sua volta, e jamais ele mesmo, o tivessem levado àquele lugar onde agora se escondia do mundo - não conseguia ter fé em algo maior. E por não ter fé, sentia-se vítima, numa órbita contínua. Tinha medo de mostrar-se vulnerável, de confiar, de entregar. Justificava sua atitude dizendo que a natureza não vive de fé — ela é uma certeza. Porém, tinha consciência de que a mesma natureza é quem ensina que é a insistência suave da água, e não sua força, o que esculpe delicadamente a rocha bruta.
         Todo aquele oceano quase infinito, todo aquele verde que o rodeava, o firmamento que aos poucos ia escurecendo e trazendo pequenos pontos luminosos — estrelas do céu, não do mar — o comoveram. Sentou-se novamente e fechou os olhos, respirando o perfume daquele começo de noite na orla marítima. Uma grande paz o invadiu e ele sentiu um imenso e quente amor no coração, uma espécie de comunhão com a natureza que o rodeava. Era um relance de fé, que na verdade se traduzia como a certeza absoluta da realização de algo que ainda não havia acontecido: tudo ia dar certo. Tudo ia se transformar. Tudo ia se clarear, da mesma forma que amanhã o sol iria nascer, não por fé, mas porque é assim que tem sido durante milhões de anos.

VANY GRIZANTE é paulista, arquiteta e escritora. Participou da coletânea “Universo Paulistano” Vol.2, editora Andross, e é autora do livro de crônicas “Abelhas sem Teto”, editora All Print, ambos em 2010. Mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras.




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4 comentários:

  1. Vany, teu conto nos proporciona uma fantástica viagem interior. A movimentação deste personagem nos apresenta a vida em vários ângulos e o caranguejo com suas metáforas é um elemento que nos convida a pensar tanta coisa, como muitas que fui pensando à medida em que lia. Parabéns pelo belo conto! Abraço da Marina Alves.

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  2. Sempre primorosa, Vany. Não seria diferente neste conto escolhido a dedo. A sabedoria e a emoção transbordam deste conto belíssimo! Aplausos desta sua fã de sempre. Abraço, Meriam

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  3. Sempre primorosa, Vany. Não seria diferente neste conto escolhido a dedo. A sabedoria e a emoção transbordam deste conto belíssimo! Aplausos desta sua fã de sempre. Abraço, Meriam

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  4. Um conto muito bem feito! Parabéns!

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