quinta-feira, 15 de agosto de 2013

DEVASTAÇÃO



Por José Neres

Impossível esquecer a primeira vez que vi Flora. Ela estava à beira do rio. Solitária. Vestida com muitos grilos e raríssimas borboletas. Sobre seu sexo, repousava um buquê de espinhadas e secas rosas, ladeadas por ramos de sensitivas e camomila. Silenciosa, ela mastigava mecanicamente um restinho de sonho. Suas mãos eram galhos ressequidos, mas suas unhas tinham ainda a maciez de perfumadas pétalas. Os grilos cobriam seu corpo. Deixavam pouco espaço para as multicoloridas borboletas.
Aproximei-me devagar. Com olhar experiente, vi que aquele terreno ainda era fértil. Ela murchava a cada tentativa de toque. Pacientemente, espantei um a um os grilos. As borboletas encontraram o caminho de volta, cobrindo o corpo de cores e alegrias. Cautelosamente, afastei os ramos de sensitivas e os de camomila. Livrei-a das ressequidas rosas e vi que um jardim se escondia por trás dos espinhos. Um jardim. Uma fonte de néctar com aroma de jasmim, sândalo e alecrim ao mesmo tempo. Provei o mel que emanava daquela fonte. As mãos ganharam viço de verdejantes folhas e as unhas atingiram consistência suficiente para arranhar minhas costas enquanto eu depositava nela a semente guardada para aquele momento.
A cada encontro, Flora se renovava, alimentava-se de sonhos novos e o sorriso voltava a sua face. As borboletas esvoaçam pelo seu corpo, deixando entrever, em breves relances, suas perfeitas formas. O vento levava seu perfume para toda a região.
Saciado, depois de tanto me afogar na seiva que ela abundantemente me oferecia, fiz o que sempre fora meu costume: procurei outros campos.
Quem chegou depois de mim jura que ali nunca houve flores, nunca houve perfume, que ela jamais sorriu e que jamais uma borboleta pousou sobre aquele ressequido corpo. Pois os que tentaram espantar os grilos que a cobriam só encontraram um tronco coberto de percevejos e, cobrindo o ventre, sedosas folhas de urtiga.

JOSÉ NERES é professor, tradutor e escritor. É graduado em Letras (UFMA), especialista em Literatura Brasileira (PUC-MG) e mestre em Educação (UCB). Autor de diversos livros, entre eles, «Negra Rosa & Outros Poemas», «50 Pequenas Traições», «Restos de Vidas Perdidas» e «Estratégias para Matar um Leitor em Formação». Atualmente é professor da Faculdade Atenas Maranhense (FAMA) e da Faculdade Pitágoras. Mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras.





Copyright 2013 (c) - Todos os direitos reservados ao autor. Esta obra é parte da coletânea 15 Contos+ Volume II, Helena Frenzel Ed. e está licenciada sob uma Licença Creative Commons 2.5 Brasil. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Um comentário:

  1. Belíssimo conto.Um texto plural em todos os sentidos. Parabéns ao autor.

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