quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Marido Perfeito


Por Ana Bailune
         Amélia limpa as mãos no avental, pega a forma com massa de bolo que acaba de preparar e inclina-se, abrindo a porta do forno. O vapor quente faz aumentar as gotículas de suor em sua testa. Enquanto espera o bolo para a sobremesa ficar pronto, descasca alguns legumes para o jantar. Lá fora, as crianças brincam, e Amélia se lembra de que ainda precisa arrumar os uniformes para a manhã seguinte. Precisa apressar-se, pois dentro em breve Jece chegará em casa, e ela nem sequer pôs a mesa para o jantar. 
         Enquanto vai realizando suas tarefas, ela se lembra da conversa que tivera com as amigas pela manhã, enquanto faziam compras no mercado, antes de ir para o trabalho. Uma de suas amigas reclamava do marido beberrão, a outra, que não fazia sexo há quase um mês. Amélia suspira fundo e dá graças a Deus, pois tem o marido perfeito: não bebe, não fuma e não tem qualquer tipo de vício. Não deixa faltar nada para as crianças, bota comida em casa, não é violento, e cumpre com suas obrigações conjugais uma vez por semana. Bem, de forma meio-automática, ou seja, "eu-forneço-o- brinquedo- e-você-se-diverte, se puder," mas pelo menos, nem isso lhe falta. 
         Logo ouve o barulho do carro, e o familiar ranger do portão se abrindo. Tira o avental e corre para a porta, a fim de recepcionar o marido. Mas Jece mostra-se mal-humorado e reage apenas automaticamente ao seu beijo de boas-vindas. Senta-se no sofá e liga a TV. Amélia põe as crianças para tomar banho antes do jantar, e desliga o forno, colocando o bolo para esfriar sobre a pia.
         Enquanto prepara a cobertura de chocolate, o movimento elíptico da colher na calda marrom-escura a faz entrar em transe. Logo, seus pensamentos a conduzem por lugares que não gostaria de ir. Lembra-se das muitas vezes em que, durante certas crises, o marido prometera que iriam contratar alguém para ajudá-la no serviço de casa, nunca cumprindo a promessa. Ou que fariam a tão sonhada viagem, a mesma que ele vinha lhe prometendo há anos, mas sempre surgiam outras prioridades, como trocar o carro, comprar uma TV de quarenta e duas polegadas para assistir a Copa do Mundo ou reformar a casa. 
         Lembra-se das vezes em que ele liga do escritório na última hora, dizendo que vai chegar tarde em casa, e que no dia seguinte, ela sente cheiros estranhos nas suas camisas, quando as coloca na máquina de lavar.
         Na sala de estar, Jece parece assistir TV, mas pensa sobre a nova secretária que anda se insinuando para ele. Tenta decidir se terá ou não um caso com ela, ou se continuará saindo com a garota do departamento pessoal. Ter casos não era um problema para ele, pois sabia administrá-los muito bem, de maneira que Amélia nunca tinha descoberto nenhum deles. Sabia conduzir a coisa com tanta maestria, que a esposa não só conhecia, como dava-se muito bem com todas as suas amantes. Elas até lhe serviam xícaras de café quando ela ia visitá-lo no escritório. No fundo, Jece achava-se com esse direito, já que era o marido perfeito: comia fora, mas também comia em casa, a fim de agradar a patroa, mesmo quando não estava com fome.
         Na cozinha, o ressentimento de Amélia começa a engrossar e ferver, junto com a calda de chocolate, e finalmente, transborda. Ela apaga o fogo, jogando a lava fumegante sobre o bolo. Respira fundo, gritando: "Já vou servir o jantar!"
         Quando põe o último prato sobre a mesa, as crianças já estão sentadas. Jece surge, já de pijamas, arrastando seus chinelos sobre o piso encerado. Começam a comer, e Amélia, já de volta de seu transe, ajuda todos a fazer seus pratos, sendo a última a servir-se. Conversam animadamente sobre as coisas do dia. 
         Lá fora, na casa logo em frente, que estivera vazia durante vários meses, há movimento: um novo vizinho acaba de mudar-se. É alto, forte, bonito, sedutor e solteiro. Procura pela mulher de sua vida.
         O vento sopra forte, e o destino entra sorrateiro pela janela da sala de jantar.

ANA BAILUNE é professora de Inglês, graduada em Complementação Pedagógica pela Universidade Católica de Petrópolis. É autora de “Vai Ficar Tudo Bem“, livro de poemas lançado em março de 2012 pela editora Pimenta Malagueta. Obteve o segundo lugar em um concurso de poesias de sua cidade com o poema “Fantasmas“ e o primeiro lugar em concurso promovido pelo Silogeu Petropolitano com o poema “Somos Irmãos“. Atualmente mantém os sites "Liberdade de Expressão", "Lado do Avesso" e uma escrivaninha no site Recanto das Letras.



Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Para ter acesso a conteúdo atual aconselha-se, ao invés de reproduzir, usar um link para o texto original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Meus Dois Amores


Por Béti Mecking
         Ambos compareceram. Tenho vontade de dar uma risada, mas me contenho. Deveria? Poderia? Os dois, cada um num canto, mais ou menos contritos.
         O alemão conversa com um amigo, parece que mantém um papo sério. Seus olhos às vezes se dispersam, navegando pelo ambiente. Tem os olhos de um azul claro, luminosos. Lembro-me bem dos nossos fins de semana juntos, nossos passeios à beira da praia, o dia em que resolvi pegar a sua mão. Fez que não percebeu, continuamos assim, até que eu a larguei. Um teste, de fato, para ver como reagiria. Esperou que eu tirasse o cabelo da testa e então, rápido e certeiro, caçou a minha mão. A partir daquele dia, aprofundamos o relacionamento. Foram dois anos de muito carinho, de uma fértil troca de idéias. Mas, depois...
         Meu último amor está encostado à porta, não sorri como costuma fazer, aquele riso fácil e espontâneo que sempre lhe permite granjear simpatias. Postou-se ali, já faz algum tempo que chegou, lembro-me daqueles garotos da minha juventude, que (dizíamos) seguravam as paredes, sustentavam os pilares do salão, enquanto nós os mirávamos de longe, ansiosas para que se decidissem a bailar. Não sei por que me lembrei agora, mas vieram-me à memória aqueles jovens de antigamente. Convenhamos, isso já faz tempo! Encontramo-nos mais recentemente, ele convidou-me a dançar, continuamos entrelaçando os corpos toda vez que nos víamos na boate, até o dia em que não mais quisemos separar-nos.
         Meu olhar vagueia pelas pessoas que estão presentes, pessoas que aprecio, por quem nutro um maior ou menor afeto. Prefiro não me fixar nos meus filhos, Letícia com sua barriga protuberante, logo terá a sua menina, Marcelo com os olhos inchados, abraçando a avó. Não, melhor deixá-los viver a sua própria vida, meus votos são de que se realizem, que saibam curtir cada instante de suas vidas.
         O padre pronuncia algumas palavras. Silêncio na sala apinhada. Estou contente por ver que tanta gente veio, largando os seus afazeres. Os dois ainda estão firmes. Alguém diz, com uma voz surda:
         — Chegou o momento.
         Uma sensação estranha me possui, quando vejo uns homens se aproximarem e fecharem o caixão. Não deixa de ser esquisito perceber que o nosso corpo, enclausurado, nunca mais verá a luz do dia.

BÉTI MECKING (Maria Beatriz Costa Mecking) nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul. Professora de francês e literatura, aposentou-se pela Universidade Federal de Pelotas. Tem publicados os livros de contos "Tempo de Renascer" (Livraria Café – Pelotas, 1997) e "Histórias do Cotidiano" (Livraria Café/ Mundial - Pelotas, 2001), também a novela "Os passos de Júlia" (Ed. Alternativa - Porto Alegre, 2008). Mantém uma escrivaninha no site Recanto de Letras.

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Noite Vermelha


Por Dolce Vita
         Leia a carta. E antes de supor que eu esteja louco, acredite neste velho amigo que diz apenas a verdade. Ainda não sei como explicar os acontecimentos da semana passada. Desde a madrugada da última quarta-feira, mal consigo pregar os olhos. Naquela noite, depois do jantar, como de costume, bebi um cálice de vinho do Porto. E iniciei mais um capítulo do meu livro. Por detestar as modernas máquinas de escrever, usei a caneta tinteiro que era de meu pai. Logo na primeira frase — ­por incrível que pareça, escrevia sobre as facadas que o assassino desferira em sua vítima ­—, a tinta azul se transformou em vermelha. Racional, como sempre fui, verifiquei o tinteiro, seguro de que encontraria tinta vermelha dentro dele, mas a cor era azul. Em seguida, quebrei a caneta num movimento tão brusco que feri minha mão. O sangue se misturou à tinta. E só então percebi que não havia tinta alguma. Era apenas sangue que jorrava da minha antiga caneta.

DOLCE VITA é psicóloga clínica, paulistana, dividida entre duas paixões: a palavra e a imagem. O pseudônimo é fruto da paixão pela Sétima Arte. Suas histórias nascem, muitas vezes, inspiradas em ilustrações. Em 2011, sete contos minimalistas de sua autoria foram publicados no livro "Mundo Mundano e seu novo mundo". Há três anos e meio escreve em seu site literário Tela de Letras.


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Distraído


Por Helena Frenzel
         Há tempos eu vinha cansado, ela sabia. Era final de sábado e voltávamos das compras do mês. Ajudando a guardar os artigos, lembrei daquilo que Zé Oliveira, bom amigo, me propôs: “Se você quiser, aproe aqui que eu não cobro, eu tenho sempre lugar pra ficar por lá”.
         Ele morava na cidade em que eu trabalhava e eu, na capital em que ele vinha trabalhar. Eu ía e vinha todos os dias; ele, só quando em vez. De fato, minha casa era a estrada e a essa conclusão só cheguei muito depois.
         Cem quilômetros por dia, ida e volta, eu já nem sabia como sabia a comida de casa, acho que ela também não. Eu chegava à noite, acabado, e ela já estava sob os lençóis; eu tomava banho e ia deitar.
         De manhã cedo, às cinco, tudo de novo: acorda e levanta, se lava, faz o café, a barba, se lava, come e lava a louça, se lava, se veste e pega a pasta, espera em frente ao portão. E ela dormia um pouco mais porque entrava só às onze.
         Um dia sou eu, no outro é o Dico, outro amigo muito bom. Ontem foi ele quem dirigiu. Moramos no mesmo condomínio, trabalhamos na mesma firma e esse emprego foi ele quem me arrumou. Antes eu só havia feito bicos, agora a coisa ia bem melhor.
         “Com esses frascos aí, muito cuidado! Lá no banheiro com o material fotográfico, cada qual em seu lugar, ouviu?”. Voltei do transe a tempo de ouvir o final da instrução; sempre fui distraído e arrumar compras é muito chato mas ajudo para não ouví-la reclamar.
         Primeiro compramos a casa e os móveis, o carro veio depois. Estamos pagando tudo em suadas prestações. Ela também trabalha e a repartição pôs-lhe um carro à roda, ela assessora políticos da capital — vaga que Oliveira arrumou, para nossa sorte, pois que assessores ganham muito bem e ele conhece muita gente ‘forte’. Oliveira é político de nascimento e leva muito bem a vida ensinado aos outros o seu dom.
         Uma vez no banheiro, larguei os frascos, tomei uma ducha. Estávamos já na cama quando algo me surpreendeu:  “Como foi seu dia?”, há tempos ela não me perguntava nada. “Bom, e o seu?”, respondi com sincero interesse. “Normal” — e essa resposta me deixou sem saber como continuar. Justo neste momento entrou o Manuel Pelota e eu me distraí falando com ele, combinando o futebol de domingo. “Está bom então, teclamos mais tarde, beijos”, ela disse. “Beijos”, respondi.
         Bem mais tarde vi quando ela saiu da rede, pôs o celular na cabeceira sem desligá-lo, virou para o lado e dormiu. Eu fiquei mais um pouco, teclando com o Dico, que já estava para sair do espaço quando me viu e me chamou. Depois de ter checado meu e-mail, pus o meu também ao lado, ativo, desliguei a luz e apaguei.
         Na segunda-feira tive um dia de trabalho cheio, cheguei em casa louco para descansar. Naquela noite, ao tomar banho, esfreguei o corpo com xampu e lavei o cabelo com sabonete. Lembrei da proposta de Oliveira: Sim, amanhã eu levaria uma mala porque cem quilômetros por dia, ida e volta, não era mole não!
         De banho tomado, pus o pijama e fiz menção de ir deitar-me. E ela já, sob os lençóis. Então lembrei-me de algo. Voltei ao banheiro e ao automático: escovar os dentes, bochechar.
         Por fim tomei do frasco com veneno em vez do frasco com loção bucal. Se troquei ou se trocaram, disso eu nunca vou saber, a polícia tinha por dado que fora caso de distração.
         E no meu funeral, vi tudo muito claro: “Cada qual em seu lugar”— Oliveira e Dico, ela no meio, eu no caixão.
         Distraído, eu jamais havia notado que as vestes bem moldavam-lhe as formas e como o preto lhe caía bem.

HELENA FRENZEL é maranhense, autora-editora de vários Ebooks gratuitos, entre eles, as coletâneas de contos “Perfis Interessantes”, “Trinta Contos de Euros e Três de Natal” e “Outros Quinze Contos”. Mantém os sites “15 Contos+”, “Bluemaedel”, “Sem Vergonha de Contar” e uma escrivaninha no site Recanto das Letras.




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O Brinde


Por José Neres
         A bem da verdade, é preciso dizer: meu pai nunca deixou que nos faltasse comida. Sempre tivemos até mais que o necessário para uma vida confortável. O que nosso pai não nos dava em palavras, afagos e carinhos, ele nos dava em comida e sorrisos. Não consigo me lembrar da voz dele. Não consigo esquecer seu sorriso meigo de dentes perfeitos. Falava pouco. Sorria o suficiente para encantar com seu silêncio.
         “Pai, tô com fome!”. Era a frase que ele mais ouvia dos filhos. Três ao todo: eu, minha irmã e meu irmão mais velho. Nosso pai nada falava. Sorria. Ia à geladeira e preparava algo bem gostoso para todos. Comíamos e bebíamos felizes.
         Mas isso foi antes da grande crise.
         A grande crise chegou e abalou a todos. Papai se esforçava ao máximo para manter a casa. Mamãe, sempre alheia a tudo, começou a perceber que a despensa ia ficando vazia. Ela falava menos que papai, com o defeito de nunca sorrir. Mas da voz dela eu me lembro. Era voz de sofrimento.
         A frase continuava a mesma: “Pai, tô com fome”. A comida vinha em quantidade menor, mas sempre vinha. A diferença era que papai já não nos acompanhava durante as refeições. Depois mamãe também parou de sentar-se à mesa conosco. A crise aumentava. Mas era diminuída pelo sorriso de meu pai.
         A geladeira estava vazia, mas a fome continuava. Papai, com o olhar, chamou mamãe para a cozinha. Ouvimos o choro dela. Sentido. Distante. Mas minutos depois esquecemos tudo com a visão de um belo bife, bem passado. Papai parou de aparecer para nós. Vez ou outra, apenas botava a cabeça para fora pela porta da cozinha e dava um sorriso. Mas agora era um sorriso triste, dolorido.
         A carne servida não deixava que sentíssemos a ausência de nosso pai. Um dia nossa mãe nos serviu apenas uma sopa com pouca carne e muito osso. Reclamamos. Ameaçamos chamar papai para resolver o problema. Queríamos carne. Estávamos acostumados era com carne, não com osso. Mamãe suspirou fundo e foi para a cozinha.
         “Filhos... Venham cá!” A frase imperativa, mas quase inaudível, vinha de uma voz já quase esquecida. Nosso pai, depois de muito tempo, falava de novo. Entramos alegres na cozinha e paramos de súbito. Sentado em uma cadeira perto do fogão estava papai. Ou melhor, o que restava dele. Apenas a cabeça se mexia, lentamente. O pulmão e o coração eram visíveis através do esqueleto que teve quase toda a sua carne cortada, congelada, frita, assada, cozida...
         Ele não precisou dizer mais nada. Compreendemos tudo. De seus lábios tristes brotou um sorriso. O último sorriso que ele dividiu conosco. Mamãe pegou uma taça de cristal. A última que restava e levou-a até a cabeça de papai. As lágrimas dos dois se misturaram e gotejaram na taça. Ele olhou para nós, triste, mas com a satisfação estampada no rosto. Mamãe, fez um gesto de brinde em direção ao esqueleto de papai, para si própria e depois em nossa direção. Abriu a geladeira e ali guardou para sempre as lágrimas dos dois.
         Voltamos para a sala e nunca mais reclamamos da sopa de ossos que nos mantinha vivos.

JOSÉ NERES é professor, tradutor e escritor. É graduado em Letras (UFMA), especialista em Literatura Brasileira (PUC-MG) e mestre em Educação (UCB). Autor de diversos livros, entre eles, "Negra Rosa & Outros Poemas", "50 Pequenas Traições", "Restos de Vidas Perdidas" e "Estratégias para Matar um Leitor em Formação". Atualmente é professor da Faculdade Atenas Maranhense (FAMA) e da Faculdade Pitágoras. Mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras.


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