quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A Velha Casa


Por Marcio Rutes
         Alguns trancos foram necessários para abrir aquela porta, emperrada pelos tantos anos de abandono. Poucos passos levaram-no até a janela, que também rija pela ferrugem das dobradiças, insistia em não ceder. Um esforço maior se fez necessário, e minutos depois, a claridade e o vento vazavam para dentro daquele quarto. A poeira, assentada como um manto denso sobre os velhos móveis, fez um rebuliço pelo ar e cobriu o inusitado visitante.
         Instantes de silêncio foram transformados em décadas de recordações, e um turbilhão de imagens ancorou na cabeça daquele homem. Muitos foram os motivos que mantiveram-no afastado daquele lugar, mas ele ainda lembrava de cada centímetro de sua infância exatamente ali, brincando no chão daquele quarto agora abandonado ao pó.
         A cama, depois de tanto tempo, ainda estava arrumada como fora deixada no dia da partida, e o que parecia ser apenas trapo agora, um dia foi o manto que cobriu seus pais naquele leito. Talvez ele tivesse sido concebido ali, exatamente naquilo que agora não passava de um depósito de traças. Uma cama que foi o ninho de um casal que se amava, mas que também foi o último descanso físico de ambos. Tanto um quanto o outro sucumbiram às doenças da velhice ali, e ele os viu partir. O soluço sinalizou para as lágrimas, o que o fez continuar sua caminhada pela casa.
         Estava agora em seu antigo quarto. Um aperto tomou seu peito ao encontrar partes de seus velhos brinquedos. O kit de construção que o pai presenteara, esquecido na pressa da mudança, ou quem sabe abandonado propositalmente, jazia num canto. Possivelmente o gosto pela engenharia teria vindo dele, mas o que importava isso agora? O romantismo da brincadeira não se compara à responsabilidade do trabalho verdadeiro. Estranhamente, lembrava mais de ter usado aquelas ferramentas para destruir do que construir.
         A marcenaria do pai, no porão, parecia sequer ter sofrido a ação do tempo. Daquele lugar, saiu todo o dinheiro que, por anos a fio, sustentou honestamente uma família inteira. Na bancada ainda estavam os formões que o pai tanto estimava. Ele era um artista, mas vivia bronqueando. “Meu filho, por que essa ânsia em desmontar as coisas? Aprenda a restaurar ou apenas construir. A satisfação é sempre maior quando criamos, mantemos ou recuperamos algo”, dizia o velho pai sempre que o via quebrando ou desmontando algo. Assim a saudade veio, e fez com que seguisse seu passeio pela casa.
         O ateliê de costura da mãe. O preço para cada passo até ali seria uma lágrima escorrida. O peito reclamou, fazendo o coração retumbar forte e saltitar. Era o ambiente mais conservado, e ele agora lembrava de ter mandado vedar cada entrada de ar para aquele local. Algumas aranhas não respeitaram tal determinação, e espalharam suas teias, mas nada que comprometesse qualquer das máquinas ali presentes. Com carinho, ele afagou cada item, lembrando dos tantos momentos bons no colo da mãe, que invariavelmente largava o que fazia para ampará-lo, fosse pelo que fosse.
         E assim ele caminhou por todo o lugar. Sala, cozinha, sótão, garagem, e também pelo que parecia ter sido o jardim. E foi lá que se encontrou com um grupo de homens trajando macacões e capacetes:
         — Por que demoraram tanto? — ele perguntou, nitidamente impaciente — Estou aqui há mais de duas horas, e não suporto esperar. Derrubem tudo. Uma casa nova e espaçosa, onde eu possa construir minha vida e a de minha família, me espera.
         Os homens não esperaram muito, e se espalharam pelo local. Marretas e serras iniciaram o barulho daquilo que significaria o fim de um ciclo, e fariam com que aquele homem rompesse definitivamente com seu passado. Ele ficou ali, parado e olhando, e diante de seus olhos, as palavras de seu velho pai pareceram tomar forma:
“Aprenda a restaurar ou apenas construir. A satisfação é sempre maior quando criamos, mantemos ou recuperamos algo.”
         Ele balançou a cabeça negativamente, e foi para seu automóvel. Por mais que a casa nova e moderna fosse seu sonho atual, os sonhos antigos ainda moravam nele, e não ficaria ali para ver tombar suas raízes.
         Quarenta anos depois, ele estava à beira da morte, em seu leito. Ao seu lado, seu único filho segurava sua mão, sabendo do fim iminente que logo viria. Numa estante ao lado da cama, um kit de construção muito antigo ocupava lugar de destaque, praticamente exposto a todos que entrassem naquele quarto. O filho, restaurador de objetos e móveis antigos, chorava enquanto o pai proferia com algum esforço suas últimas palavras:
         — Cuide bem dessa casa, meu filho. Ela, com certeza, me trará a você sempre que precisar. Este é e sempre será o seu lar, e o meu também.
         A velha casa sobreviveu. Ele aprendeu, no último instante antes de derrubá-la, que alguns laços são eternos. Não fez isso pela construção, mas sim pelo amor que nutria por seus sonhos e por tudo aquilo que o fez ser quem era. E pela primeira vez, ele não desmontou ou destruiu coisa alguma, apenas manteve intacto algo que fazia bem a alguém: a si mesmo.

MARCIO RUTES é curitibano, cronista e escreve para jornais desde 1986. No mercado editorial atuou como pré-revisor, diagramador e ghost writer, além de desenvolvedor de conteúdo para a Web. Utiliza os pseudônimos Marcio D’Antonio e Marcio JR. É autor da coletânea de crônicas “Abismo das Vaidades” lançado pela editora PERSE em 2012. Mantém o site “De Prosa Pro Vento” onde vem publicando contos, fábulas e outros gêneros.

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Para ter acesso a conteúdo atual aconselha-se, ao invés de reproduzir, usar um link para o texto original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

O Piano


Por Marcos Fábio Belo Matos
         Todos os domingos eu ia religiosamente à igreja. Mas não ia pra orar nem pra louvar ao Senhor nem nada dessas coisas de palavra de Deus, não. Eu ia era pra ver ela tocar piano. Ela era uma visão do céu, parecida com aquelas imagens de anjo que eu via no meu livro de catecismo, quando era guri. E a música que ela tirava do piano era maravilhosa.
         Eu chegava cedo na igreja e me sentava bem na frente de onde o piano ficava, esperando a hora dela chegar. Ela entrava, normalmente, uma meia hora antes, para passar as músicas. Trazia um caderninho, que um dia eu vi cheio de uns sinais estranhos, deviam ser as notas musicais que ela tocava. Sentava no banquinho, abria o piano, botava o caderninho numa espécie de prateleirinha, onde ele ficava penduradinho e dando exatamente para ela ver os sinais e tocar por eles. Tocava sem acompanhamento. Era uma igreja tradicional, muito silenciosa. Nada daqueles cultos cheios de guitarra, bateria, baixo que mais parecem um show de rock, com um pessoal tocando e cantando histericamente. O pastor tocava violino, de vez em quando, fazendo dueto com ela no piano — uma maravilha!
         Verde, vermelho, amarelo, azul, lilás...Ela variava muito a cor do vestido. Mas sempre usava vestido, nunca calça nem saia nem outro tipo de roupa. Sempre vestido. Não devia ser norma da igreja, não, porque via muitas meninas lá de blusinha, jeans justinho, até de decote. Talvez fosse pelo fato dela tocar o piano, e o piano impor uma certa postura mais clássica, sei lá. Só sei que eu adorava quando aqueles vestidos entravam na nave da igreja, sentavam e dedilhavam uma música celestial, invadindo meus ouvidos e tomando conta do meu cérebro inteiro.
         Na primeira vez, entrei na igreja por acaso. Tava em casa sem nada pra fazer, aí fui dar um passeio. Quando passava na frente do prédio, ouvi a música. Fiquei curioso, era uma música tão suave, tão diferente...Entrei e dei com ela passando os hinos, quase ninguém ainda tinha chegado. Sentei na frente dela e fiquei de olhar fixo nos dedos que deslizavam pelo piano. Nem piscava. Acho que ela percebeu, pois me olhou depois de ter passado as músicas e fez um cumprimento muito sutil, acenando com a cabeça e dando um risinho mínimo, mas eu percebi.
         Fui muitas vezes à igreja, sempre na esperança de que ela nunca faltasse. E ela nunca faltou enquanto eu morei na cidade, vários anos. Mas um dia eu voltei lá pra rever uns parentes, fui ao culto e não encontrei mais ela. Não quis perguntar nada, porque não conhecia ninguém na igreja, frequentei todos aqueles anos como um desconhecido e ninguém se importou de saber nem o meu nome. Melhor assim. O piano ainda estava lá, mas só de decoração, nenhum som. Agora tem um cara tocando violão, ainda bem que não é uma daquelas bandas que ficam se esgoelando pra ver se Jesus ouve lá do céu. O pastor também mudou, agora é um mais novinho. Assisti só a metade do culto e fui embora antes de tirarem a oferta.

MARCOS FÁBIO BELO MATOS é maranhense de Bacabal, membro da Academia Bacabalense de Letras. É jornalista e professor do Curso de Jornalismo da UFMA-Imperatriz. É graduado em Comunicação Social (Jornalismo), licenciado em Língua Portuguesa, especialista em Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura e doutor em Linguística e Língua Portuguesa. É autor de “O Homem que derreteu e outros contos” (1997), “Cotidiano Cinza” (2005) e “Crônicas de Menino” (2006), além de outros livros na área científica. Mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras.




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Barba por Fazer


Por Maria Olímpia Alves de Melo
         Passou perto de mim e sem parar disse-me: você está com a barba por fazer. Nada respondi. Nem mesmo me mexi. Fiquei onde estava, pensando. Lá de dentro veio sua voz, quebrando o silêncio com um grito: — Ei, estamos atrasados. Se você não vier fazer a barba não chegaremos a tempo. Fazia anos que estávamos juntos. Muitos anos. Tempo suficiente para que eu me cansasse. Sim, o cansaço era imenso. Dia após dia, noite após noite era a mesma ladainha. Puxa, hoje você não fez a barba! Por que não fez a barba ainda? Sempre em silêncio eu ia para o banheiro e fazia a barba. Silenciosamente. Duas a três vezes ao dia para que o meu rosto ficasse lisinho como de um bebê. Mas hoje eu não estava com vontade de obedecer. Abri silenciosamente a porta da sala e nem ao menos fechei. Sai andando calmamente pelo corredor, como estava: a barba por fazer. Entrei no elevador e vi que as pessoas me olhavam com o rabo do olho. Sim, minha barba estava realmente grande, desde ontem eu não a fizera. Mas, não me importei que me olhassem. Na verdade levantei bem a cabeça para que meu rosto barbado ficasse visível para todos. Pus até um sorriso nos lábios e fechei os olhos para que as pessoas ficassem mais à vontade, observando. Eu sou assim, não gosto de ver pessoas constrangidas. Quando o elevador parou no térreo tive que abrir os olhos para sair caminhando até a rua. Peguei um taxi e o motorista me olhou assustado. Dei o endereço e ele pareceu compreender. Recostei-me no banco traseiro e sonhei com a nova vida que estava planejando para mim. Passei a mão pelo rosto acariciando os pelos hirsutos e perguntando aos meus botões: será que ela ficaria com tamanho suficiente para que eu me apresentasse na sessão do próximo sábado? Fiquei imaginando que sim, pois ela sempre cresceu muito rapidamente. Minha ansiedade para recomeçar a vida que deixara há alguns anos era muito grande. Quando o táxi parou, rapidamente paguei dizendo: fique com o troco. Saí e parei em frente ao imenso cartaz, com meu rosto de anos perdidos e o anúncio bem grande: Não percam, sábado, a volta da Mulher Barbada!

MARIA OLÍMPIA ALVES DE MELO é natural de Arantina e reside em Lavras, Minas Gerais. Educadora, graduada em Filosofia, cultiva vários gêneros e publica seus escritos basicamente na Internet. Praticamente inédita suas publicações estão em jornais e revistas literárias, livros didáticos, antologias e publicações da Academia Lavrense de Letras. Mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras.


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O Catador de Sonhos


Por Marina Alves Gontijo
         Donga: é assim que sempre o chamaram. Nunca teve papel, documento, essas coisas que todo mundo tem. Analfabeto, criou-se na rua. Sobrevivente das pequenas migalhas recebidas nas casas, roupas e calçados usados, restos de comida às portas dos restaurantes, Donga cresceu cercado pela generosidade dos restos do mundo.
         Já rapazinho, tinha alguma força. Davam-lhe ferramentas para a capina e limpeza de lotes e quintais. Em troca, alguns trocados. Moedas que lhe serviam para algumas delícias: picolé, pipoca na praça, maçã do amor nas noites de quermesse e, vez ou outra, até o luxo de uma matinê quando tinha circo na cidade.
         Donga não sofria, nem tinha cara de triste. Muito pelo contrário. Sempre foi de rir e brincar com todo mundo. Ganhou até fama de divertido por sempre alegrar as rodas de conversa em que chegava. Também nunca foi de reclamar. Cresceu aprendendo a se virar com as pequenas coisas de cada dia.
         Um dia ele soube da novidade: catar coisas na rua podia render um bom dinheiro. Donga era criativo. Inventou uma geringonça meio maluca que lhe servia para carregar o que juntava. Era algo que gostava, dava-lhe a sensação de liberdade: andar o dia inteiro atrás de garrafas, ferro, papelão e toda sorte de velharias que as pessoas não queriam mais.
         Donga se sentiu feliz com o novo trabalho. Agora só lhe faltava mesmo uma casa. Não que o banco da praça não lhe fosse confortável. Nunca tinha se incomodado com a dureza e o frio da “cama” sob o teto de estrelas. O problema é que a cidade tinha crescido muito e dormir na rua era correr riscos de morte.
         Sendo assim, Donga decidiu: teria sua casinha. Cercou de paus um quadradinho de mato, às margens da rodovia de acesso à cidade. O resto foi moleza. Para um catador isso era questão de menos. Escolheu as melhores chapas de lata, os restos mais resistentes de uma marcenaria, os plásticos mais duráveis, e pronto! A casa ficou linda! Tinha porta, janela e até divisão de quarto e cozinha.
         Donga não cabia em si de contente. Sua casa não era um primor? Animado, cortou o mato em volta, deixou um pequeno terreiro limpinho. E uma lata plantada com cebolinha não ia bem? Achou que sim, mesmo porque tinha feito uma pequena fornalha movida a serragem e pretendia cozinhar.
         Uma onda de entusiasmo tomou conta do catador. Seus ávidos olhos agora perseguiam tudo o que pudesse servir para a montagem de seu novo lar. E que inestimáveis tesouros continha o lixo desprezado às portas: vasilhames de cozinha, vasos para enfeites, caixas preciosas, e quem diria... Até quadros para as paredes.
         Em pouco, a casa de Donga tinha tudo que pudesse querer. Sobre o telhado, colocou uma Bandeira do Brasil capturada num final de jogo da Copa. Ah, que lindeza aquele verde e amarelo tremulando ao vento! Atrás da casa pendurou um cordão para secar as roupas lavadas no córrego, ali perto. Por fim, guarneceu a porta de entrada (que também era a única) com mudas de roseiras, amarelas, restos de uma poda de jardim que trouxera lá do Seixas. Ah, que felicidade, o lar tão bonito!
         Ao voltar do trabalho, Donga sempre parava um pouquinho lá na curva da estrada de onde podia ter uma visão completa de sua moradia. Que lugar bonito ele tinha preparado! As pessoas que passavam de carro por ali, deviam mesmo ficar espantadas com casinha tão alegre. Era bem capaz que ficassem curiosas para conhecer seu feliz morador... Com certeza haveriam de querer até estar no lugar dele...
         Foi por isso que Donga tomou a última providência: pendurou na cerquinha de entrada, disfarçado entre a parreira de chuchu, um pequenino chifre de boi. O povo dizia que era bom para afastar inveja. E ele não queria correr o risco de ver sua vida desandar. Afinal não era comum se encontrar por aí, pessoas como ele, com tanta sorte!

MARINA ALVES GONTIJO é natural de Lagoa da Prata, MG. Escritora, poetisa, autora do livro de contos “Sombras e Assombrações” (2007). Formada em Pedagogia, pós-graduada em Psicopedagogia. É membro da ACADELP- Academia Lagopratense de Letras; colunista do jornal INFORMAÇÃO. Conta com trabalhos publicados na revista AMAE Educando, em coletâneas, antologias, e jornais locais. Mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras.


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Pode me Chamar de Motorista


Por Mário Jacoud
— Boa noite, doutor.
Carlos, o motorista, abriu a porta traseira do carro e Doutor Jorge entrou. Nem respondeu ao cumprimento. "O que essa gente pensa? Que pobre não precisa de boa noite? Que, do lado de cá, todos os dias são iguais, ou seja: sempre péssimos? Esse aí deve achar que nem adianta desejar boa noite e, além disso, nem me reconheceu. Eu o conheço: tem um cargo na diretoria da empresa só porque é genro do presidente da companhia. Faz um ano, levei ao aeroporto, atrasado, pediu pressa, corri o que pude para chegar a tempo, disse que ia me recomendar na firma. Nada, nem se lembra de mim."
— Para minha residência.
"Outra vez? Uma falta do meu motorista e a empresa manda o mesmo chato do ano passado... Será que não tem outro substituto na firma? Lembro que pedi pressa, correu feito louco até o aeroporto, reclamei com o responsável, mas, pelo visto, não tomou conhecimento. Exigirei providências."
— Sim, senhor.
"Eu sei onde ele mora. Peguei o endereço antes de sair. Que casa! O sogro deu como presente de casamento, mas, pelo que se comenta, vai ter que mudar logo. Dizem que as coisas não andam bem com a mulher... Detesto quando toca o celular do passageiro, por mais que eu não queira acabo prestando atenção na conversa, acabo distraindo."
— Alô... sim... chegarei logo... calma... pense mais um pouco...
"O que ela quer? Trabalho muito, faço tudo que posso, dou toda atenção possível. Jura que me ama, mas diz que assim não dá para continuar. Como pode? Será que ama mesmo? De minha parte o amor ainda é o mesmo. Sei que falam que casei pelo dinheiro, pelo emprego. Mentira! Por amor, foi por amor! Maldito retrovisor, o motorista parece que não tira os olhos de mim, tentando adivinhar... "
— Com licença, doutor...
"Pronto! Lá vou eu tentando conversar de novo, mas não posso evitar, sou assim, que posso fazer?"
— Problemas em casa, com a patroa, não?
"Acho que fui longe demais. Não respondeu, vá lá."
— Sabe, doutor, em casa também é assim. Para ela nada está bom, parece que sempre falta alguma coisa. E isso me incomoda. Ela já quis separar, eu também. Pensei bem e fiz umas continhas... Assim, ó: todos temos qualidades e defeitos, e as qualidades devem superar os defeitos, nem que seja um pouquinho, cinquenta e um a quarenta e nove por cento. Se ela for boa para mim durante metade do dia, tudo bem. Durmo oito horas, o trabalho me ocupa por mais dez horas, sobram seis horas. Então? Por mais que ela queira brigar, jamais vai estragar metade do meu dia.
"Será que entendeu? Esses desse tipo... parece que quanto mais estudam mais burros ficam."
— Em nome do amor, doutor, faço o impossível para compreendê-la por seis horas, só seis horas.
— É mesmo?
"Só me faltava essa, filosofia de motorista. Após um dia cheio, tantas reuniões infrutíferas, a caminho de mais uma briga em casa, quem sabe até separação... O sujeito tem um pensamento simples demais... vinte e quatro horas, ocupado dezoito, é só suportar mais seis... Bem, às vezes, a solução do problema está no mais simples."
— Como é o seu nome?
"Carlos, como eu podia lembrar? Esses caras de uniforme parecem todos iguais. Quero ver como se sai dessa, agora."
— Pois é, Carlos, digamos que, nessas seis horas que você passa com sua mulher, ela atazana tanto, mas tanto, que as seis passam a contar por doze, treze horas, ou uma eternidade? Como você faz?
”Peguei... "
— Doutor, vou falar o que penso, se não concordar me desculpe. Acho que as mulheres são assim como seres especiais, bem diferentes de nós, humanos. Agem e pensam de outra maneira. Quer um exemplo? Se a sua mulher telefonar, durante seu trabalho e não falar nada importante, o senhor vai ficar irritado, vai dizer para ela não fazer mais isso, que está ocupado, etc. Ora, ela deixou seus afazeres para que? Para irritá-lo? Não, doutor, ela quer ouvir sua voz, fazendo isso ela está dizendo que o ama, e sua voz, mesmo não dizendo nada, tem que mostrar que a ama também. Simples e fácil. O telefonema que o senhor recebeu agora há pouco é um exemplo. Se fosse o senhor a ligar e dissesse que estava a caminho de casa e com saudade, com certeza não teria briga por hoje, não acha? E olha que o senhor tem um celular...
— Simples e fácil, ora.
"Motorista, matemático, psicólogo, filósofo, metido."
— Você pensa que tem solução para todos os problemas de relacionamento entre casais? Um motorista! Responda, então, a pergunta que fiz. Se mesmo com o tal telefonema, ela estiver esperando para mais uma batalha verbal, o que você faz?
— O doutor usa paletó para que?
"Deixe ele pensar um pouco, acha que não entendo nada, ele que está complicando, não eu."
— Eu uso também, sou obrigado. Tenho cinco bolsos no meu, acredito que o senhor tenha no seu, não? A diferença entre nós é o que carregamos nos bolsos. Veja nos seus, celular, cigarros, isqueiro, carteira e não sei mais o que. Nada que seja importante para ela. Nos meus tenho um bombom e uma rosa. Todos os dias pego uma flor do jardim da empresa, conto com o doutor para guardar segredo, senão adeus emprego. Ao primeiro sinal de mau humor, estendo a rosa, como um mágico. Se não for suficiente, tenho o bombom, que guardo para uma segunda tentativa, ou para o dia seguinte. Se precisar da terceira tentativa, tenho minha boca, doutor. Não é pela boca que a gente mostra o que tem no peito, na alma? Faço isso sem palavra alguma. Enquanto ela ainda tenta brigar, fico mágico novamente e falo tudo o que quero com um beijo, inesperado, apaixonado. Tudo fácil, simples e barato.
— Pare na próxima esquina, vou seguir caminhando. Como é seu nome mesmo?
— Pode me chamar de motorista, mesmo, doutor.
Carlos estacionou e abriu a porta para Doutor Jorge. Enquanto manobrava o veículo viu o homem falando ao celular e caminhar em direção à floricultura. Carlos, o motorista: solteiro convicto, matemático, psicólogo, filósofo, mágico, metido e mentiroso. Simples e fácil.

MÁRIO JACOUD é economista, nasceu em Guaraçaí – SP, em 1952. Atualmente vive na cidade de São Paulo.

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